TÓQUIO, JAPÃO!

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Do outro lado do mundo!



Tóquio, Japão, março de 2019.


O título pode parecer óbvio, uma vez que nosso destino foi o Japão, que fica, literalmente, do outro lado do mundo, mas... não é bem assim. Estamos falando de uma mudança quase radical em alguns dos nossos paradigmas quando se trata de ir à Tóquio, o lugar específico do Japão onde passamos 8 maravilhosos dias.

Nossas experiências foram diversas, uma vez que, singularmente, cada um as vivencia sob sua própria perspectiva pessoal. Mas todos concordamos que o Japão não é um destino fácil e muito menos tranquilo, a começar do fato de que passamos nada mais, nada menos do que aproximadamente pouco mais de 24 horas em pleno vôo, tanto na ida quanto na volta. Haja disposição e vontade de ir para a terra do sol nascente. Mas vontade e disposição foi justamente o que não nos faltou. Para compensar a disposição, o cansaço nos acompanhou quase todo o tempo e o jetlag veio com tudo, já que a alteração de fuso horário é de 12 horas. Isso nos deixa meio confusos quanto ao tempo e ao comportamento tal como, por exemplo, quando resolvemos nos comunicar com nossos familiares e precisamos nos lembrar que talvez estejam na metade do seu sono, em plena madrugada. Mas fora as percepções temporais e o cansaço resultante da exaustiva viagem, a adrenalina em ir e visitar, ainda que apenas uma pequena parte deste belo país insular, nos estimulou e nos permitiu superar quaisquer dificuldades.

Nosso planejamento começou meio que de repente. Durante um almoço, veio a oportunidade (através de uma promoção) de fazer valer a ideia e o sonho (principalmente dos nossos filhos) de realizar esse empreendimento nada simples, diga-se de passagem. Quase num ímpeto, fechamos a viagem e tivemos apenas 6 meses para todas as providências (no meu caso, esse tempo foi pouco, uma vez que o planejamento incluia todo um levantamento financeiro para dar suporte a algo desta magnitude, além de outras providências). Porém, em meio a vistos, casacos e contratempos, os dias foram passando e a gostosa ansiedade crescendo e tomando a forma de templos, kanjis e hashis. Confesso que na véspera estava com o coração apertado e com um sentimento pouco comum, que me deixou aflita. Ainda bem que fui salva por uma bela e relaxante piscina com luzes azuis, a convite dos nossos companheiros de viagem - Flávia e Leo - que, a propósito, merecem muitas salvas por toda a amizade e a cumplicidade com que nos brindaram todo o tempo. Esse spa de última hora nos ajudou a acomodar nossos corações para a partida do Brasil.

Entre muitas malas e roupas totalmente inadequadas ao verão brasileiro, partimos para o Galeão, em pleno verão carioca. Procedimentos de praxe cumpridos, sentamos para um merecido café no Starbucks, em meio a uma banda tocando músicas carnavalescas para recepcionar os turistas que chegavam ao Brasil para o Carnaval. A vida é assim… enquanto uns vêm, outros vão. Como não estávamos muito no clima de carnaval (nossa proposta, aliás, era bem outra), mal observamos a tal banda que, no fim das contas, estava era fazendo um anormal barulho no aeroporto. Mas é interessante perceber que é justamente isso que nos caracteriza… essa bonita e alegre receptividade, apesar de todos as nossas complicadas questões internas. 

Após as despedidas (minha filha insistindo para eu não ir...rs), entramos na área reservada e fizemos a primeira das muitas passagens em alfândegas e imigrações. Curiosamente, meu filho foi interpelado e inspecionado. Como o funcionário não entendeu o que ele disse, até questionou se ele falava Português. Bem, por enquanto sim… mas daqui a pouco a comunicação será bem outra. Viajamos pela United Airlines e eu descobri (sim, essa foi minha primeira viagem internacional) que vôos assim não tem lá tanto glamour e conforto quanto a nossa imaginação sugerira. Bem, na verdade, não tem quase nenhum glamour e muito pouco conforto, pelo menos para os pobres mortais que viajam de classe econômica. Devo confessar uma certa invejinha ao passar pela classe executiva. Apesar desses detalhes pouco importantes, foi um vôo tranquilo (mas que não acabava mais) até Houston, nossa primeira escala.

No primeiro dia de março chegamos a Houston pela manhã. Um friozinho totalmente suportável nos recepcionou, já que estávamos no ambiente climatizado do aeroporto. Após os chatos, mas indispensáveis procedimentos partimos para o café da manhã regado a algo que não consegui beber direito, mas que garanto, não era o nosso café. Depois, fizemos a nossa já habitual sessão de fotos (sempre obrigatórias, é claro) e pleiteamos o direito a uma agradável sessão de massagem por 5 dólares (pagaríamos e ficaríamos mais, se não fosse a hora do nosso próximo vôo). Algumas rápidas comprinhas no freeshop de Houston, adentramos o vôo da ANA, mas não sem antes atentar para algumas trocas de assentos daqui e dali. E aí foi bem interessante porque, apesar do meu assento não ser nada ruim (janela e fila de apenas 2 lugares), eu queria mesmo era ficar perto do meu filhote. A solução foi a troca de assentos com um japonês que abriu um sorriso de orelha a orelha quando percebeu que trocaria seu corredor por uma janela. A melhor parte: Guilherme começou a se comunicar em japonês. Aparentemente, se fez entender, porque a surpresa era do japonês foi apenas por um jovem ocidental falar clara e fluentemente a sua língua. Começamos bem.

O vôo, apesar das longas 14 horas nas quais literalmente não sabemos o que fazer, foi bem mais agradável. A ANA é uma excelente companhia aérea. O serviço é melhor servido e assessorado. As comissárias são umas fofas, com seus alegres e coloridos uniformes, sempre com um simpático sorriso. Uma prévia do japanese way of life, não exatamente pelos sorrisos, mas por algo que se tornou uma constante em nossa estada e que expressa bem o jeito de ser japonês: a solicitude. Vamos falar mais sobre isso adiante.

Entre guloseimas (sim, a ANA serve biscoitinhos, balinhas, toalhinhas umedecidas e bebidinhas o tempo todo) e altos papos (Flávia e eu tagarelamos bastante… foi ótimo), conseguimos suportar as longas horas de vôo. Porque, vamos combinar, o tempo parece não passar… você vê filmes, lê, tenta dormir, ouve música, conversa, olha o progresso da viagem, tentar dormir de novo e o avião simplesmente parece que não sai do lugar.

Segue então o relato de alguém que, na verdade, não criou grandes expectativas, mas deixou que a fenomenologia da viagem falasse por si. A estratégia deu certo e assim pude ser agradavelmente surpreendida a cada dia, a cada experiência, a cada contato com essa cultura exótica que traça um perfeito equilíbrio entre a tradição e a modernidade, entre a sisudez e a gentileza. O Japão se expressa pelo dinamismo e pelo consumismo (ambos excessivos), mas também pela gentileza e pela delicadeza. O país é um misto de silêncio e movimento, de estilosa elegância e inusitado ecletismo.

Chegada em Tóquio e Onsen

Nossa chegada ao Narita Airport foi acompanhada por uma discreta emoção. Estávamos, afinal, no céu do Japão e isso não é pouca coisa. Eu e meu filho trocamos um olhar cúmplice, feliz… enfim, estamos aqui. Era o sonho dele… desejado e planejado com todo cuidado. Guilherme, assim como Giulia, sua namorada, passou horas pesquisando lugares, acessos, curiosidades e informações diversas sobre o Japão, desde a língua até jogos peculiares (especialmente o Go, um típico jogo japonês), bem como datas comemorativas e o significado de alguns objetos tradicionais. Fez também um pequeno glossário (que quase não usamos, já que aproveitamos para gastar nosso inglês porque, no nosso caso, falar japonês estava meio fora de cogitação, salvo uma palavrinha aqui outra ali). Ou seja, ambos estudaram, se prepararam e fizeram jus aos seus respectivos presentes de 15 anos!!!!

Chegamos a um aeroporto que está claramente se preparando para as Olimpíadas no próximo ano. Passamos por algumas reformas estruturais e entramos em solo efetivamente japonês. Uauu!!! No caminho, as comissárias acenaram e sorriram para nós, nos reconhecendo do vôo… moças simpáticas! Adoro isso!

Bem, como já disse, nem me dei conta da diferença de fuso horário e fui logo enviando mensagem de whatsapp para avisar que chegamos bem. Quase boa noite aqui e quase bom dia lá no Brasil. Incrível estar com 12 horas de diferença no fuso horário. Um fato interessante é que viajamos o tempo todo em plena luz do dia, sempre de encontro ao Sol, que estava, de certa forma, sempre nascendo e nos acompanhando. A rota pelo Pacífico nos permite vivenciar essa curiosa experiência.

O aeroporto é beeeem distante do centro de Tóquio e também do nosso hotel. Algo em torno de mais ou menos 1 hora, como acontece com a maioria dos aeroportos internacionais daqui do Brasil também. A via que liga os dois pontos é uma espécie de Avenida Brasil de Tóquio; porém, nenhuma semelhança, nenhuma coincidência. E olha que eu fiz questão de avaliar o que pude no percurso por onde passamos, olhando até para o asfalto e tentando, inutilmente, localizar algum senão. Nada, tudo placidamente perfeito e tranquilo. Ou seja, através do ônibus especial que nos transportou até o hotel, diria que o primeiro contato com a realidade japonesa me deixou excelentes primeiras impressões.  Entretanto, como já era esperado, o jetlag nos atacou com tudo que pode. Além de estarmos exaustos pela viagem de aproximadamente 14 horas (só no último vôo), a alteração radical do fuso horário nos deixou um tanto quanto zonzos. Foi preciso respirar fundo para descer do ônibus, encarar o frio cortante do entardecer da cidade e dar entrada no hotel 4 estrelas, o Grand Nikko Tokyo Daiba, que é um luxo só... agradável desde a recepção até o quarto aconchegante, com sua surpreendente vista  para uma parte da ilha de Odaiba, nosso bairro pelos próximos dias.



Após nos acomodarmos, saímos para ir ao Onsen Monogatari, onde tivemos nossa primeira experiência japonesa, com direito a quimono, banho pelada em relaxantes águas termais e jantar de lámen (rämen, em japonês). Fiquei tão agradavelmente satisfeita que, se pudesse, voltaria lá todos os dias. A única parte que não foi legal é que a Giulia perdeu seu anel e ficou bastante triste com isso. Mas, para compensar, vimos (todos contentes) Guilherme falar e escrever em japonês com a moça do Onsen, na intenção de recuperar o anel, caso fosse achado. Infelizmente, não aconteceu. Mas sentimos orgulho do nosso jovem se comunicando de forma fluente em japonês. Isso logo deixaria de ser um espanto, já que ele se comunicou assim durante todo o tempo.

Voltamos relaxados para o hotel, em meio ao frio gélido da noite de Tóquio no inverno. No caminho, passamos pela Estátua da Liberdade e pela Ponte de São Francisco. Ao que parece, Tóquio - por ser uma cidade cosmopolita - possui vários ícones do mundo representados, talvez com a intenção de homenagear seus muitos visitantes, assim como os habitantes estrangeiros que a adotam como cidade do coração. Em breve iremos conhecer mais alguns. 

Não foi difícil pegar no sono, tamanho o cansaço da viagem e o relaxamento do Onsen. Importante estarmos descansados, porque amanhã a andança começa cedo.

Harajuku e Shinjuku

Nosso primeiro dia efetivo foi de muito frio (muito mesmo). Confesso que não estava preparada para o frio do final do inverno japonês, com direito a chuva e vento. Ou seja, para os meus padrões, algo em torno do quase insuportável. E olha que eu falei ‘final do inverno’. Nem quero pensar o que significa o auge....O fato é que foi complicado transitar por uma Tóquio chuvosa, sem guarda-chuva e com luvas molhadas (tive que pegar outras emprestadas).

O trenzinho de Yurikamome que nos transporta da ilha artificial, onde fica o nosso hotel, até a Estação do Metrô de Shimbashi (de onde os nossos demais destinos partem) é uma delícia: aconchegante e com gostinho de “estamos quase em casa na volta”. Detalhe: sem maquinista. Fiquei encantada com este nosso trenzinho de estimação. 
De Shimbashi, neste primeiro dia, fomos para Shibuya e, de lá, caminhamos até o Parque Yoyogi, onde visitamos o templo xintoísta Meiji Jingu, com direito a rituais, vistas ao longe de um casamento, amuletos e pedidos aos deuses. Foi encantador… apesar do frio. Neste templo tivemos a oportunidade de observar e praticar alguns rituais próprios de um templo xintoísta. Tanto na entrada e na saída, atenção por onde devemos caminhar, pois diz a lenda que, ao atravessar um portal, adentramos um território sagrado, onde os deuses habitam. Assim, entramos pelo centro do portal, mas devemos caminhar na lateral, pelas calçadas, uma vez o centro é reservado aos passos divinos. Não só é preciso fazer reverências ao cruzar os portais, mas observar nosso passos e nos purificar com água e preces, lavando as mãos e a boca com um prática  interessante e peculiar (mas que congelou nossas mãos com a água gelada).  No Japão, alguns atos são meticulosos e ritualísticos, e isso estar incluído até mesmo uma simples volta no parque.

A ideia inicial era visitar o encontro de cosplayers que acontece todo domingo na ponte Jingu Bashi, mas este tal encontro não rolou devido, provavelmente, à chuva. Entretanto, um aspecto interessante é que os japoneses não se deixam abater pela chuva ou pelo frio. Saem e inundam as ruas com seu guarda-chuvas transparentes que esbarram sem maiores atropelos uns nos outros. A elegância também não fica em casa. Vai às ruas num misto de ecletismo e exotismo de encher os olhos. As japonesas têm um estilo único e muito interessante. Adorei a suave e exótica elegância que vi por lá. Ao que parece, em se tratando de vestimentas, quase tudo é permitido e tudo é muito natural. Desde um casaco dourado em plena manhã chuvosa até as famosas e tradicionais japonesas de quimono e chinelinho, passando por eventuais cosplays e pela turma fantasiada andando de kart pelas ruas de Tóquio, debaixo de chuva (nós os encontramos duas vezes). O frio participa da festa como um velho amigo. Tudo é muito divertido e estiloso. Adoraria ter fotografado as moças para me inspirar depois, quando nosso tímido inverno chegar. 

Almoçamos comidinhas ocidentais em Harajuku: o macarrão italiano estava gostoso, mas super apimentado e as bebidas foram interessantes, mas não exatamente saborosas. Após o almoço, voltamos para a chuva e fizemos compras em Omotesando, num bazar oriental, de onde não dava vontade de sair, de tão legal e repleto de maravilhosos souvenirs sobre o Japão. Infelizmente, tudo muito caro. Apesar da vontade de carregar a loja  inteira, tivemos que nos contentar com algumas pequenas lembranças. 

Conformados, fomos para a Takeshita Douri, onde Giulia adquiriu um lindo cosplay da Alice. Depois partimos para a Daiso, na mesma rua, que fiquei sabendo ser a representante japonesa das nossas lojas de 1,99. Lá sim, dá para comprar algumas lembrancinhas legais e não tão caras. Após nos divertirmos no tumulto da Daiso, pegamos um metrô para Shinjuku, onde visitamos a papelaria Sekaido, que tem simplesmente 5 andares de pura diversão. Quase nos perdemos por lá. Gui comprou material para caligrafia japonesa, mas não sem antes pedir orientações (em japonês) a um senhor que lá estava com a mesma intenção e Giulia também adquiriu artigos imprescindíveis para aprimorar seu belo talento (a menina desenha muito bem). Em seguida, os dois foram com Leo para a loja Bic Camera para a aquisição do tão sonhado Nintendo Switch. Após a compra, nem precisa dizer o estado de felicidade em que o Guilherme se encontrava depois. Enquanto isso, eu e Flávia - já completamente exaustas - fazíamos umas modestas comprinhas na Uniqlo (loja esta que deveria ter no Brasil… alguém me diz por que não tem???). Por fim, não aguentamos lanchar pela rua e compramos coisinhas para comer na loja de conveniências em frente ao hotel, que é bem sortida e realmente conveniente.

Combinamos nos encontrar às 7h da manhã do dia seguinte para aproveitarmos bastante o dia! Importante: as ligações para o Brasil eram feitas ao chegar de volta ao hotel… Bom dia lá e boa noite aqui! Bom saber novidades de casa… todos bem!

Sensoji, Akihabara, Corujas e frango frito

Novamente amanheceu chovendo e fazendo muito frio. Acordamos cedo e fomos direto para Asakusa, onde visitamos o templo budista Sensoji. Na via de entrada para o templo, fizemos algumas poucas compras numa rua em que as lojas estão dispostas no caminho para a entrada do templo. Todas perfeitas para turistas ávidos por coisinhas e novidades do Japão. No templo, tentamos a sorte com os omikuji (papéis). A parte boa é que, se os conselhos divinos não fossem muito favoráveis, bastava amarrá-los em local apropriado, fazer uma prece entregando aos deuses o eventual azar e tentar a sorte de novo. Na primeira vez, pendurei meu papelzinho e fiz preces e reverências para afastar qualquer nefasta possibilidade. Na segunda, a sorte me sorriu e fiquei bem satisfeita. Nada como a generosidade divina budista japonesa. 

Pelos arredores do templo, foi possível contemplar um jardim japonês com carpas… lindo!!! Claro que tiramos muitas fotos (o tempo todo, aliás). Na saída, fotos com uma japonesa de quimono e também do táxi, que por sinal é bem charmoso. O motorista foi gentil e posou em diversos ângulos para mim. 


De lá, fomos parar numa loja especializada em ábacos. A vendedora (ou dona) da loja falou o melhor inglês que encontramos em toda a nossa estada, mas os ábacos eram caríssimos. Gui adquiriu um mais modesto, mesmo querendo outro. Na saída, ela (com seu inglês impecável) nos orientou sobre como deveríamos fazer para chegar em Akihabara. No caminho, parada para o almoço no McDonald's, onde experimentei o Ebi Filet, o sanduíche de camarão que só tem no Japão. Gostosinho, diferente, interessante… valeu a novidade. Na saída, esqueci meu guarda-chuva brasileiro numa farmácia e lamentei. Depois fiquei me perguntando o que seria feito dele, porque lá em Tóquio, o que vc deixa na entrada é retirado na saída, sem a preocupação habitual do Rio de alguém pegar seu pertence “por engano”.

Depois, Akihabara, com o objetivo de ir no Radio Kaikan, local onde é possível comprar de tudo um tudo relativo a animes. São andares e mais andares de action figures e outras coisas do gênero. Aliás, Akihabara é uma espécie de meca dos amantes de animes. Dá até para ficar tonto no meio de tantas opções. De lá partimos para a compra de mangás e, em seguida, para o café das corujas, onde a fofurice em forma de grandes olhos e penas impera. Meus companheiros adultos de viagem e caminhadas tiveram um momento off e lá fui eu com as crianças para o café das corujas. Enquanto esperávamos (a entrada é rigorosamente no horário agendado), buscamos um local onde nos abrigar do frio intenso. 


Já no café, ficamos absolutamente encantados com a experiência… as corujinhas, de tudo quanto é tipo, são realmente muito fofas. A vontade é de agarrar todas. Mas as regras são rígidas: carinho somente na cabeça, com as costas das mãos, silêncio total e nada de movimentos bruscos… e foram apenas essas regras que permitiram às corujas escaparam do meu abraço apertado. Ainda bem que as fotos são permitidas. No final da experiência, se quisermos, podemos adquirir as penas das corujas que seguramos e acariciamos, o que é muito legal, mas o Guilherme foi quem teve uma grande sorte neste dia. Ao encostar a cabeça na corujinha, uma das penas se prendeu nos seus óculos e acabou caindo. As normas do café dizem que, se caiu com vc, a pena é sua!!! Belo presente! Saímos comentando a fofurice e o tamanho do corujão que tinha por lá, mas que não pôde ser escolhido devido ao seu momento de descanso merecido. Aliás, um detalhe interessante: elas têm horas de recreio e se revezam no atendimento aos seus ‘clientes’. E também voam ocasionalmente pelo café.

Na saída, reencontramos Flávia e Leo e fomos jantar em um Kaiten zushi, ou sushi de esteira, onde tivemos nosso hilário episódio do frango frito. No Kaiten zushi, os pratos passam por nós numa esteira que circula pelas mesas. Vc escolhe o que quer consumir pelo tablet ou aguarda passar algo que o agrada. O que vc escolhe chega até você pelo segundo andar da esteira e um sensor sinaliza quando está chegando. Não me lembro bem se o tal do ‘frango frito’ foi escolhido ou se estava apenas passando por nós na esteira, mas o fato é que ficamos entusiasmados com o tal prato que parecia ser... de frango frito. Bem, era realmente, só que não exatamente o que estamos acostumados, e sim cartilagem de frango. Nem precisa dizer que ninguém gostou, né? Pagamos sem comer, mas foi divertido. Bom aviso para ler antes a descrição do cardápio antes de pedir o prato.

Metrô, Yurikamome, hotel, ligação para o Brasil e descanso merecido na piscina aquecida e com hidromassagem do hotel. Lá fui eu dar um mergulho de short, top e camiseta, trajes inimagináveis aqui no Brasil. Mas lá é assim. Comedimento até na hora do banho de piscina.

Cerejeiras, Museu Nacional, Jinbocho, Maidreaming, Tokyo Tower

O dia amanheceu frio como sempre, mas com um lindo sol para nos alegrar e animar. Hoje é dia de ir ao Parque Ueno visitar não somente o parque, mas também o Museu Nacional de Tóquio. Ao subirmos a escada que dá acesso ao parque, adentramos a larga avenida central que dá acesso ao Museu. Qual não foi nossa surpresa ao avistarmos, no caminho, uma das primeiras cerejeiras a florir em Tóquio (depois soubemos que as primeiras cerejeiras florescem de fato no Parque Ueno). Lógico que ficamos um bom tempo apreciando (e fotografando) a tal primeira cerejeira que, por sinal, ficava bem próxima a um templo logo após a entrada do parque. Foi mágico apreciar este símbolo tão belo e delicado do Japão. Imagino como ficam as ruas e avenidas, margens dos rios e outros cartões postais repletos dessa linda árvore, cujas flores são representativas da efemeridade, da renovação, da esperança e da sensualidade. 
O Japão entra em festa na Primavera e o Parque Ueno já estava sendo preparado para as festividades que se anunciam.

 
Após esta agradável prática do hanami (em japonês, 花見, cujo significado é ver as flores), caminhamos pelas avenidas do Parque Ueno, passando por mais um belo templo, onde Guilherme ofereceu aos deuses, com uma prece solene, uma cerejeira colhida no caminho. 


Depois, visitamos o Museu Nacional de Tóquio, com suas preciosidades culturais. Creio que ficaríamos ali o dia inteiro transitando de um ponto a outro do Museu, que abriga belíssimas obras e nos confere o necessário banho cultural para que possamos entender um pouco a história e a cultura japonesas, mas outros compromissos nos convocavam. Ao sairmos do Museu, vimos mais um alegre grupo de estudantes chegando para visitar o Museu. Já havíamos nos deparado com crianças nos jardins em frente ao Museu e depois vimos outro grupo de adolescentes. Porque no Japão é assim… tudo parece fluir harmoniosamente, integrando, de forma bem natural, as visitações aos Museus e aos parques à educação formal. Os jovens aprendem na prática, com frequência, o significado de sua história e seus costumes. Detalhe: os uniformes (especialmente os dos adolescentes) são rigorosamente iguais e isso vale até para as mochilas. Interessante também como caminham ordenadamente e sem qualquer tumulto. Não me ocorreu nenhuma semelhança no Brasil, onde as visitas a museus e centros culturais até acontecem mas, infelizmente, não fazem parte de uma rotina ou de uma prática habitual e sim trata-se de um acontecimento eventual que não traz a vivência cultural necessária à apreciação cotidiana do que é belo e do que é culto.  

Na volta do caminho no parque Ueno, passamos por mais um templo e um mausoléu, onde tivemos a oportunidade de ver um dragão tirar a sorte para o Guilherme (foi bem divertido observar a dança do dragão, que nos lembrou nosso velho realejo). Na saída do parque, cumprimentamos a estátua do Último Samurai, Saigo Takamori; um sujeito rechonchudo e simpático, que ‘posou’ com seu cachorrinho, o que o torna para nós ainda mais amigável. 

Claro que, a esta altura, já estávamos famintos. A solução mais rápida foi almoçar num dos muitos restaurantes próximos ao parque. A comida estava interessante, bem ao estilo japonês, com arroz “unido” e sem tempero, mas que ajudava a controlar o sabor apimentado da carne. Para acompanhar o tal arroz sem graça, um molho para lá de esquisito. O que nos salvou foi a gostosa e familiar salada Ceaser  e a deliciosa ‘sopa de nada’. O apelido da sopa foi coisa nossa porque a dita cuja mais parecia uma sopa de água com lascas de alho poró. Porém, quando a tomamos, surpresa… foi eleito o prato mais saboroso do dia. Que venham mais ‘sopas de nada’! Ao sairmos, demos uma paradinha na Padaria do Panda (aquela que se tornou uma espécie de point para nós), para complementar o almoço com guloseimas divertidas e com carinhas de Panda. Mais uma fofura para a nossa coleção!

Na parte da tarde nos dividimos. Leo deixou o grupo para um momento off e o restante do grupo rumou para o bairro das livrarias, Jimbocho, onde Gui comprou livros para seu estudo de japonês. O local é pouco visitado por turistas, mas tem lá o seu charme. Mais modesto em termos de cores e luzes, não deixa de ter as megas lojas de muitos andares e é, na minha avaliação estética, bastante agradável. Me senti agradavelmente acolhida em Jinbocho, mais do que nos outros bairros. A livraria onde ele comprou os livros (dicionários, na verdade) que queria, tinha seis andares. Lá, protagonizei um episódio cômico a respeito da compra de um guarda-chuva. Não me dei conta de que os produtos pegos num determinado andar, devem ser pagos no próprio andar onde se encontram. Distraidamente, peguei o tal guarda-chuva e parti para a escada rolante. Qual não foi minha surpresa quando o vendedor japonês saiu correndo atrás de mim e me interceptou no meio da descida. Meio sem entender, disparei pedidos de desculpas, logo me dando conta da situação. Após pagar pelo produto, saí sorrindo da situação. Muito doido ser interpelada pelo vendedor preocupado em não receber. Mas tudo, tanto a cobrança devida quanto a abordagem, foi feito com com muita educação e reverência. Aliás, reverência é algo constante no Japão. Faz-se reverência para tudo e para todos. E isso é muito, muito legal mesmo. Proporciona um sentido de educação que parece estar um nível acima do resto do mundo. Depois de um tempo, vc se acostuma a reverenciar tudo e se curvar para todos que encontra pela frente. Trata-se do Ojigi (em japonês, お辞儀, que signifca arco, curva), uma arte e uma atitude muito cortês e simpática, que a princípio pode parecer algo próximo a uma submissão, mas na verdade reflete gratidão, respeito e gentileza ímpares. Ah, sim, também tirei foto escondida de outro vendedor. Quando resolvi pedir sua autorização para mais fotos, ele recusou polidamente. De um modo geral, eles parecem não gostar de uma exposição excessiva. Aos poucos, vamos praticando brazilices para dar conta dos nossos anseios e furos. Ainda bem que aprendemos a reverenciar delicadamente nossos anfitriões, o que ameniza um pouco nossas atitudes.

Após os livros, voltamos para Akihabara (porque precisamos sempre nos lembrar que esta foi uma viagem para jovens, que ainda exercem sua juventude através dos seus ícones alegres e coloridos). Lá, fomos no Animate, no Gachapon e no Maidreaming. O primeiro para mais uma busca  implacável por não sei exatamente o que (afinal, animes e afins compõem um universo um tanto quanto incompreensível para adultos ocidentais já com uma certa idade). O segundo é o divertido caça níqueis japonês, onde uma fortuna é depositada nas maquininhas de incontáveis temas. E eis que até mesmo nós (os tais adultos ocidentais de uma certa idade), nos divertimos. Não só nos divertimos buscando os temas de nosso interesse, mas também fazendo algumas besteiras, tais como pegar um item por engano. Eu me distraí achando que o que eu queria estava na máquina de cima e eis que me cai nas mão nada mais nada menos que Chucky, o terrível. Caímos na gargalhada quando me dei conta do meu engano (na verdade, fiquei algum tempo atônita, sem saber o que aquele objeto colorido representava). Eu quis me desvencilhar do Chucky, mas fui convencida a conservar a prenda para lembrar do momento fatídico e dos Gashapons. Dali, partimos para o Maidreaming, um café bizarramente fofo (nas palavras da Giulia). Nós, que já estávamos meio contaminadas pelo Chucky, não conseguíamos parar de rir no café. O lugar é realmente bizarro. Não é permitido fotografar ou filmar as moças, o que nos limita muito, porque elas ficam circulando todo o tempo. Isso quando não estão quase nos ‘obrigando’ a fazer caras e bocas e falar versinhos fofinhos para ganhar a comida. Sério, é muito estranho e engraçado. Sabemos que envergonhamos nossos filhos rindo daquele jeito (porque imaginar os maridos naquele lugar fazendo Miau Miau para ganhar a comida era algo que realmente extrapolava nosso bom senso… e foi exatamente isso que fizemos), mas foi inevitável. Espero que nos perdoem, queridos filhos e agradecemos a oportunidade dessa experiência bizarramente fofa e inusitada. Flávia até ganhou um prato decorado (só a decoração do prato valeu, porque conteúdo mesmo, quase nada) de presente pelo mês do seu aniversário e pagamos também pelo show das meninas. O show em si foi mais uma bizarrice que me deixou perplexa imaginando o que a pobre moça (bastante parecida com o já inseparável Chucky) havia tomado ou cheirado antes da apresentação, tamanha a doideira. Mas enfim, fato é que nos divertimos de montão e saímos com a alma desopilada de tanto rir. Claro que tivemos os imprevistos… duas ligações de vídeo justamente quando estava impedida de filmar ou registrar as atividades. Fui obrigada a dar uma desculpa (perdão, Jorge… perdão, amigos Mário e Érica) e me desvencilhar rápido das chamadas antes de piorarmos ainda mais nossa situação junto à Gui&Giu.

Neste dia, ainda tivemos disposição para visitar a Tokyo Tower. Pegamos um táxi de Akihabara e fomos até a Torre (voltamos também de táxi para o hotel). Achei as viagens bem caras e, ao que parece, os motoristas dirigem em alta velocidade nas vias mais livres. Mas pelo menos os carros são bons e quero acreditar que exista um alto padrão de qualidade para se dirigir profissionalmente em Tóquio. Então, tudo bem… valeu por conseguir ver um pouco da cidade pelas vias tradicionais, ou seja, pelo asfalto, apesar de ser bem estranho ser conduzida em mão inglesa. Dá uma sensação de que algum acidente vai acontecer a qualquer momento. Pelo menos nosso cérebro agradece o exercício mental que essas mudanças espaciais proporcionam.

Voltando à Tokyo Tower (a Torre Eiffel de Tóquio), devo dizer que é uma visão grandiosa. Como fomos à noite, ela estava totalmente iluminada e nos ofereceu belíssimos ângulos da cidade à uma altura considerável, mais exatamente 250 metros de altitude. Tudo bem conduzido (apesar da aparente pressa de todos os funcionários em concluir o turno do dia) e cuidadosamente decorado. Foi uma experiência muito prazerosa e devidamente registrada. Claro que poderia ter sido bem melhor se estivéssemos mais descansados (o dia foi bem puxado), mas ainda assim foi muito bom. E é claro também que deu um medinho quando o elevador subiu e, de repente, deu um tranco (foi uma subida com emoção… rsrs); nada que a vontade de estar lá em cima não compensasse. Registro para o banheiro mega luxuoso (passei por ele duas vezes antes de entrar achando que não era o banheiro) e para as simpáticas moças da recepção, que ficaram felizes em posar para as fotos. Até que enfim alguém fica feliz em posar para nossas lentes.
Chegamos ultra cansados no hotel, mas bem felizes pelo dia animado e produtivo que tivemos.

SkyTree, Ghibli, Pokemón, coelhos, Alice

Acordamos cedinho. Ao que parece, pela programação, o dia hoje será novamente intenso. Na saída do hotel soubemos que o Yurikamome estava parado, o que nos surpreendeu. Soubemos depois que havia uma espécie de manutenção acontecendo em várias estações. Um contratempo com certeza, mas nada que a solicitude (olha ela aí de novo) de uma senhora japonesa não pudesse resolver. Ela nos guiou e acompanhou para uma outra opção, em um outro trem, para conexão com as linhas de metrô. Euzinha seguia o bonde, porque estava meio que perdida. Esclareço que minhas percepções espaciais não são lá essas coisas. Se eu estiver em terra estranha, elas pioram ainda mais. Então, não me sigam e não me peçam sugestões… me deixem segui-los, é mais seguro para todos. No final, é claro, deu tudo certo. Meus guias de viagem (Flávia, Leo e nossos filhos) são muito espertos, para o bem de todos. Eu compenso topando o que vier e tentando não atrapalhar. 


Mesmo com o imprevisto, chegamos relativamente cedo na Tokyo Sky Tree - a mais alta estrutura do Japão e a segunda maior do mundo - em tempo de tomar nosso café da manhã por lá. Aliás, nosso café da manhã acontece cada dia num lugar, o que é uma delícia. Subimos pelo elevador da SkyTree, a uma velocidade impressionante, até a primeira plataforma, já bem alta (não fomos até o topo por dois motivos: um porque ficava muito caro e o outro, falta de tempo mesmo). Lá na SkyTree é tudo lindo, cuidadosamente pensado para dar um ar ao mesmo tempo futurista e aconchegante. Passeamos pela torre, tiramos fotos (muitas) e adquirimos souvenirs, inclusive medalhas nas quais gravamos o nome completo de Guilherme e Giulia, e a medalha de ouro das Olimpíadas de 2020. Tudo lá já está voltado às Olimpíadas e adoramos ter tido esse contato agora.  

Após circularmos pela SkyTree, o grupo se separou. Leo, Guilherme e Giulia foram visitar o Estúdio Ghibli, que fica em Mitaka, distante cerca de 1 hora de Tóquio. Segundo soube, adoraram a visita, especialmente Giulia, que estava ansiosa por esse programa, uma vez que é um estúdio de animação famoso e ela simplesmente adora desenhar. E, diga-se de passagem, desenha extremamente bem (acho que já disse isso, mas é bom reforçar). Eu e Flávia aproveitamos o tempo e fomos passear e fazer comprinhas no Ameyoko Shopping Street, mas também podem chamar de Amoyedoloko (se o nome for vagamente familiar, estamos mesmo falando da Amoedo, a loja de material de construção do Brasil. Este apelido foi dado pela Flávia). A Ameyoko Shopping Street é uma verdadeira Saara japonesa (fazendo um paralelo com o centro comercial ‘Saara’, do centro do Rio), sortida, confusa e tumultuada, mas bem interessante também. Antes, porém, paramos para almoçar no nosso point querido, a Padaria do Panda, uma vez que o local fica bem na saída da estação de Ueno, em frente à tal padaria. Não fosse a enorme rampa que éramos obrigadas a subir (e descer) nesta estação, eu já estava me sentindo quase bem à vontade no local. Rampa de Ueno, você será sempre lembrada.

Lá, na Amoyedoloko encontra-se de ‘tudo um tudo’, desde roupas e comidas até alguns produtos exóticos. Percebi que havia muitos chineses circulando por lá. Bem, pelo menos assim me pareceram, porque não é tão difícil distingui-los: os chineses são diferentes dos japoneses, não tanto visualmente num primeiro olhar, mas pelos modos e comportamentos. Até presenciamos uma treta entre um chinês (ou seria um japonês?) com uma vendedora numa farmácia. A coisa foi meio tensa, mas não demorou muito para acabar. Enquanto andávamos pela saara japonesa atrás de flores (que não encontramos) topamos com um templo no meio daquela confusão. Bem interessante essa mistura de vibrações. As pessoas paravam para contemplar e subiam para suas preces. Se não estivéssemos já muito cansadas, acho que subiríamos também. Após circularmos um pouco por ali, fomos tomar um café na estação de Ueno, em outra conhecida padaria, que serviu o chocolate mais gostoso que tomei por lá, com marshmallows se dissolvendo na bebida.

Depois da andança, pegamos o metrô e partimos para Akihabara, pensando que encontraríamos nosso grupo por lá. Porém, antes de circularmos mais um pouco, resolvemos deixar nossas coisas num desses cofres (locks) que ficam pelas saídas do metrô. Assim andaríamos sem peso por algum tempo, o que seria um alívio, dado o volume que a esta altura já nos pesava. Colocamos as moedinhas, depositamos nossas coisas, juramos proteger a chave com nossas vidas e tiramos fotos. Andamos um pouco e depois visitamos uma loja de 6 andares muito legal que vendia, entre outras coisas, os famosos vasos sanitários japoneses. (ai que vontade de levar um pra casa!!! rsrs). Após darmos nossa voltinha, retornamos para buscar nossas coisas e qual não foi nossa surpresa quando percebemos que estávamos perdidas. Acho que era o cansaço que começava a nos assolar e talvez por isso ficamos um pouco desorientadas. Mas ainda bem que tiramos fotos (sim, elas nos salvam às vezes) e conseguimos perguntar numa outra estação e nos localizar devidamente. Rimos muito, aliviadas, com a situação. Paramos para descansar um pouquinho e foi então que soubemos que nosso grupo não iria para Akihabara e sim direto para Ikebukuro. Entramos novamente no metrô e partimos para Ikebukuro que fica um tanto distante de onde estávamos. O metrô estava cheio e ficamos em pé. Mas logo depois, uma senhora japonesa já idosa e muito gentil, com sua nata solicitude, convidou a Flávia para sentar ao lado dela. As duas logo começaram a conversar em inglês. Logo depois, vagou um lugar e me uni ao papo. Que senhorinha fofa!!! Ela nos contou que tem uma filha que mora na Inglaterra, mas que ela mesma nunca saiu do Japão. Aprendeu a falar inglês quando era jovem e adorou a oportunidade de conversar com alguém. Demonstrou estar contente e orgulhosa em saber que somos do Brasil e que estávamos no Japão para conhecer um pouco do seu país. Ela desceu uma estação antes da nossa, se despediu e nos deu tchau ao sair. Esta foi uma das mais doces recordações que levarei comigo. Apenas lamentei não ter perguntado seu nome. Esta senhorinha alegrou nosso coração!

Ao chegarmos na estação de Ikebukuro, tivemos que andar muito até o local onde nossos queridos estavam. O local, o Sunshine Alpha, onde fica o Pokemón Megacenter é um shopping muito bonito e imponente, que parece ser também um centro de convenções ou algo assim. Lá estava acontecendo um show de dança muito bonito de um grupo colegial. Tirei algumas fotos sem saber que era proibido fotografar. Na segunda tentativa, veio um japonês e enfiou uma placa na minha frente avisando da proibição. Tudo com educação e reverência, mas de forma a deixar claro que eu não deveria insistir. Meu consolo é que não fui a única advertida. Enquanto isso, Guilherme e Giulia se esbaldavam pelo Pokemón Megacenter, a loja dos milhões de pokémons fofos. Em seguida, liberei Flávia e Leo da visita ao café dos coelhos - mais um dos cafés temáticos japoneses - onde, mais uma vez, ‘fofura’ é a palavra de ordem. Após as instruções dos funcionários do café, entramos para a nossa sessão de carinhos e chamegos nos lindos coelhinhos à nossa disposição. Giulia estava encantada! Foi realmente agradável ver os bichinhos circulando e comendo em nossas mãos. Geralmente, nesses cafés, tudo o que não lembramos é do café propriamente dito. Café pra quê, se tínhamos que alimentar os coelhos à nossa volta? A vontade era de ficar lá mais um bom tempo, mas as regras são rígidas e outro grupo já estava a postos para participar da fofurice.

Após os coelhos, nos reunimos novamente e rumamos para o café de Alice. Este sim, apenas um local para jantarmos e aproveitarmos a belíssima decoração do lugar. O café de Alice que visitamos é um dos muitos cafés com o mesmo tema espalhados por Tóquio e cada um conta uma parte da história. Foi um momento relax de alto nível, na companhia de Alice e do chapeleiro maluco, com a rainha vermelha nos observando do alto de uma tela. Os pratos eram gostosos (atenção especial à sopinha de milho servida na entrada, que estava uma delícia) e as sobremesas decoradas em forma de bichinhos fofos. Dava até pena comer. No café de Alice foi possível aos adultos apreciar drinks de sakê. Brindamos à nossa viagem e apreciamos a bebida. Estávamos precisando!

No fim deste dia movimentado, voltamos exaustos para o hotel. No Yurikamome (que voltara a funcionar), ninguém dizia uma palavra, tamanho o cansaço. Eu só pensava na banheira com hidromassagem do quarto do hotel.

Palácio Imperial, Museu de Ciências e Hachiko


Acordamos um pouquinho mais tarde neste dia, o que nos permitiu uma boa relaxada. Achávamos que estava tudo tranquilo e que teríamos a manhã praticamente livre, mas eis que, após o café na estação de Shiodome, percebemos que havíamos perdido a hora para o Palácio Imperial, o que quase deixou a todos nós paralisados. Uma distração da nossa parte, talvez devido ao cansaço. Mas, como somos brasileiros e não desistimos nunca, demos meia volta e lá fomos nós tentar a sessão seguinte. Íamos visitar o mercado de peixe, para degustar petiscos de Tóquio, mas paciência, ele fica para a próxima vez. Após uma pequena correria de nossa parte e um equívoco sobre em qual parte do Jardim Imperial seria a visita, conseguimos entrar. Mas não sem antes suportarmos uma torturante espera na chuva e no frio gélido da alameda em frente à entrada para turistas do Palácio Imperial. Enquanto esperávamos, vimos uma comitiva escoltada sair e depois retornar aos limites do Palácio, ao que parecia ser uma apresentação de credenciais de embaixadores ao Imperador Akihito (pelo menos foi o que Leo cogitou). Para passar a hora, especulamos como seria uma saidinha dos membros da família imperial para dar uma simples volta, ir ao cinema ou fazer uma comprinha. Isso, que parece tão normal e corriqueiro para nós, pobres mortais, pode não ser exatamente banal no caso da família imperial. Especulações à parte, a visita aos jardins imperiais consistia num tour pela área externa do Palácio com guias em três idiomas: inglês, japonês e chinês. Ficamos no grupo inglês, é claro. Após algumas orientações por parte dos organizadores e apesar do frio e da chuva persistirem em nos açoitar durante todo o passeio, lá fomos nós transitar pelas avenidas e jardins. Algumas pessoas à nossa volta tiritavam de frio, mas nada parecia abalar a nossa serelepe guia em seu salto alto, andando rápida pelos caminhos imperiais e disparando as informações. Ela conseguia, inclusive fazer graça. Eu mal conseguia ouvir, porque mal conseguia acompanhar. Mas a visita foi, apesar de tudo, muito interessante. O ponto que mais me chamou a atenção foi a esplêndida conservação dos jardins e a tradicional arquitetura das construções aliada à modernidade fora dos limites do Palácio. Tudo capturado pelas nossas lentes fascinadas. Infelizmente, só nos foi é permitido ver a área externa, porque o restante é restrito. Afinal, o Palácio Imperial é a morada oficial do Imperador e de sua família. Para selar minha visita, fiz uma reverência ao cruzar os pórticos do Palácio, em sinal de respeito e agradecimento à sagrada figura do Imperador e ao que ele representa ao povo japonês. O Imperador significa para os japoneses, especificamente, “soberano dos céus”. Teria sido maravilhoso se tivéssemos a oportunidade de ver, nem que fosse de longe, sua Majestade Imperial Akihito, que abdicará este ano ainda, em favor de seu filho Naruhito. Mas paciência, já nos sentimos honrados em pisar em solo imperial e sagrado.

À tarde, estava programada a visita a outros 3 museus, mas por conta do tempo e do contratempo,  Giu&Gui tiveram que escolher apenas um. Decidiram pelo Museu de Ciências, em Ueno. A visita foi somente deles. Os adultos ficaram saboreando guloseimas, mais uma vez na Padaria do Panda. Mais tarde, eles se uniram a nós para lanchar.

Durante todo o dia, a chuva e o frio caminharam conosco firmes e fortes.  Mas, apesar da falta de trégua do tempo, não poderíamos deixar de ir ao cruzamento mais movimentado do mundo, em Shibuya. Antes, ao sair da estação, parada para fotos com o mais famoso cãozinho japonês, Hachiko, eternizado numa produção hollywoodiana tão dramática que quase nos desidrata. Confesso que achei emocionante abraçar sua estátua. Em tempo, Hachiko é famoso e  deve ser o segundo cachorro mais fofo do mundo. O primeiro é, sem dúvida, o Nog (meu pet que deve estar morrendo de saudades). Se mudarmos a categoria de cão para gato, temos que os dois mais fofos são a Shiro e o Sam, os lindos gatinhos da Giulia e sua irmã.

Monte Fuji


Este dia foi, para mim, o mais especial, pois foi o dia da nossa espetacular visita ao Monte Fuji ou, mais apropriadamente, o Fuji-san, do alto dos seus 3776 metros de altitude. O dia amanheceu lindo, como um presente de Tóquio e do deus (os japoneses assim o consideram) para nós. Da estação de Yurikamome, O Fuji-san já se mostrava ao fundo, em sua imponência, visível mesmo à distância. Foi incrível poder ver o Monte da cidade de Tóquio. Ansiosos, pegamos o ônibus da excursão de um hotel, em Ginza. Nossa guia, Motoko, foi muito simpática e sorridente, colocando-se à nossa disposição de um jeito quase brasileiro. Mais tarde, ao conversar com ela, soube que já esteve no Brasil, em São Paulo, e que gosta muito do nosso país. Nós também gostamos do seu, Motoko.

Do hotel em Ginza para Fuji Town foi um longo percurso de quase 2 horas para chegarmos próximos ao Monte. No caminho entre Tóquio até lá, passamos pela maior carta de amor do mundo, segundo o que disse nossa guia, que fica exposta no meio de um pequeno morro, nos arredores de Fuji Town. Isso me pareceu inesperado… não imaginava esse romantismo todo por parte dos japoneses, ainda mais assim, via carta, externado e compartilhado.

Mas voltemos ao Monte Fuji. Confesso que quando o vi mais de perto, meu coração acelerou. Olhar para o vulcão, perceber que eu estava lá, real e fisicamente, foi impactante. Ir ao Monte Fuji foi uma espécie de exigência de viagem de minha parte. Se vou ao Japão, quero ir ao Monte Fuji. Explico: montanhas me atraem, não porque estão lá (esta é, claramente, a resposta óbvia), mas porque são imponentes, belas, desafiantes por si mesmas e porque estão realmente lá, num convite quase eterno para que sejam alcançadas, superadas, admiradas e reverenciadas. E creio que todos nós concordamos que o Monte Fuji é um belíssimo vulcão, dos que ainda estão ativos, mas sem expectativas de entrar em atividade. Curiosamente, encontramos ainda vestígios de sua última erupção pelo caminho. Fizemos uma pequena parada numa estação, ainda um pouco distante, mas de onde já era possível ver o deus Fuji em toda a sua magnitude. Já mais próximos, na primeira estação, ele se revelou em (quase) todo o seu esplendor. Teria sido glorioso se tivéssemos chegado mais perto. Infelizmente, embora o passeio incluísse a ida à 5a estação, por motivos de segurança a estrada estava fechada e o acesso  não estava autorizado. Nem precisa dizer o quanto lamentamos.

Ao sair, almoçamos num restaurante aos pés do Monte, que incluia um parque de diversões. Fiquei pensando no privilégio de brincar nas montanhas russas com este deus majestoso te abençoando ao fundo na paisagem. O almoço foi espetacular e, melhor de tudo, bebemos a água do Monte Fuji. Agora sim vamos emagrecer e ficar saudáveis para todo o sempre. Claro que não faltou um pequeno deslize de minha parte, derrubando todos os palitinhos no chão. Nada que não se resolvesse com a pronta atenção da nossa sorridente guia, que logo pediu auxílio. No restaurante, disponibilizam quimonos e roupas de samurais e tiramos várias fotos interessantes. Tudo muito divertido.

Após o almoço, rumamos pelas sinuosas estradas em direção ao lago Ashi, em Hakone, em uma das faces do Monte Fuji. Com o espírito do deus impresso na minha alma, eu o acompanhava pela estrada, hipnotizada pelo seu manto branco e eterno. Em Hakone, fizemos um belíssimo passeio pelo lago Ashi e subimos pelo teleférico até o Monte Komagatake, a 950 metros de altitude, alcançando um local surpreendente, com um lindo santuário desativado, de onde é possível ver maravilhosamente bem o Monte Fuji. Também vimos neve... pegamos neve. Foi minha primeira experiência com ela e é claro que achei fascinante. Como o dia estava ensolarado e sem vento, resistimos bem à temperatura de 0° C. Na saída, comprinhas e sorvete. Nosso retorno até a estação onde pegamos o Shinkansen (trem bala) foi bem agradável. No caminho vi três lindas cerejeiras que também já desabrocharam e senti um pouco da beleza que é a primavera no Japão. Motoko foi muito gentil todo o tempo, nos acompanhando até a estação e tirando fotos com a gente. No final, a melhor parte: nós nos abraçamos calorosamente e ela nos desejou uma ótima estada em Tóquio. Ah, bem que eu queria ficar mais tempo… mas já vamos embora amanhã. Prometi a ela escrever e enviar as fotos que tiramos juntas e com o grupo. Não te esqueceremos, Motoko!

Na estação, ficamos na expectativa de andar no trem bala, e é claro que foi bem legal saber que estávamos em um trem desse tipo, mas a estabilidade é tanta que não sentimos nada diferente. Valeu a experiência! Observar, de dentro do trem, a eficiência do funcionário conferindo tudo umas 4 vezes antes de liberar a partida, foi um bônus que não me passou desapercebido. Antes de seguirmos para o hotel, passamos em Yurakucho, onde Gui comprou o jogo Go, na loja Kotsu Kaikan (loja esta indicada pela nossa guia Motoko, que não sossegou enquanto não conseguiu a informação precisa da localização para dar ao Guilherme). É a tal da solicitude, lembra?

Na volta, jantamos tranquilamente no shopping próximo ao hotel, em Daiba. Um momento relax antes do tumulto que se seguiria.

Mais tarde, já no quarto do hotel, arrumamos as malas para nossa partida no dia seguinte. Conseguimos, a duras penas, distribuir tudo pelo que se revelou ser um reduzido espaço para tanta coisa. Acho que Guilherme queria, se pudesse, embrulhar o Japão em papel de presente branco, com laço vermelho (as cores da bandeira) e levar consigo para o Brasil. Mas enfim, após um bom tempo usando todos os meus artifícios de organização, fechamos a mala. Já era quase 1 hora da manhã e eu estava simplesmente exausta. Mas eis que, de repente, a alça da mala menor quebrou. Fazer o que, né? Acontece… a coitada não aguentou o peso do conhecimento e das brincadeiras (livros e jogos). Adormeci pensando em como solucionar o problema no dia seguinte. Gui, é claro, estava tão preocupado com suas preciosas aquisições e determinado a trazer tudo que garantiu carregar a mala na cabeça, se fosse preciso.

Robô grandão, Retorno

Dia de partida… de minha parte, um pouco com o coração partido também. Como acordamos um pouco mais tarde, conseguimos tomar nosso café da manhã na padaria próxima ao hotel (aquela que nunca estava aberta quando saíamos para nossas andanças). Neste dia, conseguimos também passear um pouco pelos arredores do hotel. Visitamos o Robô grandão, o Unicorn Gundam, tiramos fotos legais e relaxamos no shopping enquanto Gui&Giu devoravam um enorme e colorido algodão doce. Também nos preparamos para o check-out, mas não sem antes resolver o incidente com a mala. Saí em busca de outra no shopping e consegui uma  promoção (eu acho) que foi possível comprar. A vendedora foi bem simpática (e solícita), me ajudando na compra. Como neste momento eu estava sozinha, sem Guilherme para servir de intérprete, me virei no inglês mesmo. Ela me disse que falava só um pouquinho de inglês e eu devolvi dizendo que eu também, que eu sou brasileira… aí ela abriu um enorme e duradouro sorriso. Bem legal essa receptividade. Após a compra, voltei correndo para o hotel e rearrumei tudo, a toque de caixa, já que o tempo já não estava tão confortável assim. Tudo devidamente acomodado, só faltava ajustar o peso das malas e esta foi uma verdadeira odisséia para conseguir cravar os quase 23 kg em cada uma. Eu e a dupla Gui&Giu terminamos a árdua tarefa tão cansados quanto aliviados. Claro que também sobrou pra mochila de mão de todo mundo. Mas, como já sabíamos no fundo do coração, no final deu tudo certo, apesar de termos cravado os olhos na balança do aeroporto, vigiando a pesagem.

Na saída, agradecemos ao Grand Nikko Tokyo Daiba pela acolhida e partimos para o aeroporto de Narita no mesmo ônibus especial que nos trouxe. Após os procedimentos de praxe, bem como lanchinhos no McDonald’s e comprinhas no free shop, pegamos nosso vôo para Seattle. Quando lá chegamos, estávamos já bem cansados das horas iniciais de vôo. E ainda teríamos pela frente mais um vôo até Houston e uma escala antes da última decolagem que nos traria ao Brasil. Haja resistência. Um detalhe curioso: saímos no final da tarde de sábado de Tóquio e chegamos pela manhã de sábado em Seattle. Muito doido esse percurso contra o tempo. Não sei não, mas acho que voltamos mais jovens do que quando fomos.

Apesar do cansaço, do jetlag e do calor ao chegarmos, aqui estamos, sãos e salvos. O Rio nos recepcionou com 29° e algumas nuvens. Muito bom chegarmos em segurança para abraçar nossa família e nossa cidade novamente. Viajar é maravilhoso, mas voltar também é.

Minhas impressões

Foram as melhores possíveis. Viajamos para o outro lado do mundo, sabendo do esforço que seria necessário, mas também das janelas que se abririam. Particularmente, foi uma radical primeira experiência fora do meu Brasil. Adorei! Nos divertimos, fortalecemos laços, ampliamos horizontes, nos amparamos nas subidas e descidas e voltamos felizes, apesar de alguns poucos pesares.

Segundo meu filho Guilherme, o Japão é mais ocidental que o próprio Ocidente. Provavelmente, ele tem razão! É um país muito ocidentalizado, mas com precisas e constantes referências orientais, o que certamente o distingue e o torna único. Definitivamente, o Japão não é para amadores. Há muito que ver, muito que refletir sobre essa cultura diversa da nossa. Eles são mais comedidos e nós somos mais expansivos. Eles são ordenados e nós somos mais bagunçados. Eles tem um sentido muito presente de atenção ao outro e nós somos mais descolados. Enfim, não há muitos termos de comparação. E, na verdade, não tem que ter. O Japão é único, assim como o Brasil. E eles parecem gostar bastante de nós, da nossa espontaneidade, da nossa música e talvez até do nosso confuso way of being. Um ponto fundamental é que lá, ao contrário daqui, não se sente medo ou receio de qualquer tipo pelas ruas. Lá, parece que tudo acontece dentro de uma calculada e esperada tranquilidade. Para nós, brasileiros, é um momento de alívio diante de nossa tumultuada realidade. Provavelmente deve existir algum senão com relação ao Japão nos quesitos segurança (embora as estatísticas, aparentemente, digam que não) ou problemas sociais; e é claro que não é difícil observar o quanto são circunspectos e voltados ao universo pessoal de suas leituras (aliás, uma constante em vários lugares, o que é bastante positivo) ou de seus celulares (algo inevitável!!!), e esse comportamento introspectivo e formal talvez explique seus altos índices de isolamento e até indicativos de questões psicológicas graves. Mas, fato é que não fui ao Japão em busca de pontos negativos ou análises aprofundadas, ainda que a observância de alguns aspectos seja inevitável, como quando me deparei com a dureza do trabalho nem sempre elegante (ao contrário) e algumas vezes até suspeito. Fui ao Japão como turista, para conhecer o que ele tem de melhor. E garanto, tem muita coisa boa por lá.

O Japão te surpreende, te acolhe, te reverencia. Donos de um território pequeno (para os nossos padrões) e montanhoso, os japoneses se aglomeram nos grandes centros e transitam frenéticos para todo lado, conduzindo a horda humana apressada em direção às suas ocupações e dilemas próprios, mas sempre com uma sutil e presente preocupação pelo bem estar alheio. Tóquio é uma cidade populosa, cosmopolita, intensa. Mas diante de tudo isso, algo me marcou profundamente e assimilei, comovida, um traço que parece ser essencialmente japonês e que já foi pontuado aqui: os japoneses são muito solícitos. Sim, na minha perspectiva, solicitude define o povo japonês, talvez ainda mais que sua tradicionalidade ou sua tecnologia, ambas exuberantes.Há uma palavra específica para esse sentimento de hospitalidade, associado à gentileza e à solicitude nela implícita, que é Omotenashi (em japonês, お持て成し). Os japoneses são assim, solícitos como uma cerejeira florida. De suas árvores e raízes, a delicadeza, os sorrisos, a reverência agradecida; de suas flores, a contínua vontade em oferecer seus préstimos que embelezam, suavizam e consolidam os dias, mesmo os mais frios e chuvosos. O Japão deixou saudade! E a vontade,no meu caso, de voltar. No coração do meu filho Guilherme, a certeza de que isso acontecerá!

Luana Tavares